Uma voz áspera solta um urro perturbador. Uma pancada nas cordas da guitarra produz um acorde brutal que é ouvido até o término de sua reverberação. Todos seguram o fôlego e Reid canta mais uma canção soturna ou irada. Suas canções têm poderes e personalidade. Tranformam meninas boas em meninas más e ainda te oferecem uma dose extra de bebida durante suas noites sujas.
Nascido e radicado em Pittsburgh, Paley nos anos oitenta foi vocalista da banda punk The Five que costumava ter como banda de abertura, nada menos do que os Pixies. Anos de tendências de mercado inverteram essa posição e recentente era o músico que abria os show da banda de rock indie famosa(?) para uma platéia normalmente atônita e confusa com aquela figura apresentando um estilo musical completamente fora de sintonia com a atração principal da noite.
Fora dos palcos Reid Paley é um cara simpático, bem humorado, sociável e atencioso com os fãs. Sob as luzes, no entanto, a história é outra e podemos notar um personagem com duas facetas distintas no palco: Reid Paley cantando e Reid Paley quando não está cantando. Ambos chamam muita atenção, mas o inusitado é ver como Paley é entre as músicas: um artista egocêntrico, mal-humorado e que está fazendo um favor para sua platéia em estar ali. O irritante Paley surge entre uma canção e outra enquanto ele afina uma corda que acabou de desafinar possivelmente de propósito só para enrolar o público por mais uns segundos enchendo mais ainda sua paciência. Ele gosta do constrangimento causado pelo silêncio e a falta de estímulos visuais do seu show. Não há banda. Ninguém mais no palco além de um homem chato que cisma em ajeitar o cabo da guitarra de uma forma específica no chão ao seu lado depois de cada música como se tivesse TOC, que só fala o que não deve ser falado para uma platéia - Vocês não entendem nada do que é bom e são umas criaturas apáticas! - e que mesmo assim você continua assistindo e esperando o que ele fará em seguida. É um adorável vilão caricato que desaparece à cada canção para que surja o bardo sujo, marginal e amargurado entoando seus hinos, suas desgraças e sua fúria.
Punk-blues-minimalista-noir-bêbado... Os rótulos precisariam de um ou dois hífens adicionais para explicar uma música mais simples de ser ouvida do que rotulada. Dissecar as influências de jazz, blues, Scramin' Jay Hawkins ou compará-lo à outros músicos que evocam uma atmosfera saída de um livro de Bukowski é pouco. Além do trabalho solo, Reid também possui um trio em paralelo que recentemente está em turnê de lançamento do disco entitulado "Approximate Hellhound Vs. The Monkey Demon" que parece mais uma extensão de seu trabalho solo que já continha algumas canções com banda, possibilitando encorporar certas músicas que não funcionariam tão bem com apenas uma guitarra base. Indiferente de só ou acompanhado, Reid Paley transforma tudo o que toca em algo que até passa pelo coração, mas nasce no estômago de cada um antes ou após uma bebedeira. Sirva-se. |